Backrooms é terror ou um meme?

Meme toma de assaulto Hollywood.

O que começou como um meme visual da internet, era assustador precisamente porque não pedia interpretação. O filme, pelo contrário, insiste em explicá-lo. E é nessa passagem do mistério para a coerência que Backrooms perde grande parte da sua força.

O fenómeno dos Backrooms nasceu de forma quase acidental, a partir de uma imagem publicada no 4chan em 2019 que mostrava um espaço vazio, amarelo, iluminado por lâmpadas fluorescentes, com paredes sem personalidade e uma carpete gasta. A descrição que acompanhava a imagem falava em “noclip out of reality”, como se alguém tivesse atravessado a fronteira do mundo real e caído num labirinto infinito de salas sem janelas. Esta expressão é muito conhecida nos videojogos, sobretudo nos primeiros títulos 3D, onde em alguns cenários as paredes não tinham solidez, permitindo atravessá-las, muitas vezes abrindo atalhos nos caminhos. 

A partir daí, a comunidade online começou a expandir o conceito, criando níveis, entidades, regras e até organizações fictícias, num processo de construção colaborativa que transformou uma imagem banal num universo inteiro de terror liminal. O desconforto visual tornou-se parte essencial da identidade dos Backrooms: aquele amarelo monocromático, o zumbido constante das luzes, a sensação de humidade na carpete e a ausência total de vida humana, criou um ambiente simultaneamente familiar e profundamente perturbador.

Com o tempo, este espaço imaginário evoluiu para uma espécie de folclore digital. A estética liminal, que significa corredores vazios, escritórios desertos, salas de transição, ganhou força nas redes sociais, onde imagens e vídeos curtos funcionam como fragmentos de uma realidade distorcida. O conceito tornou-se popular precisamente porque não tinha lógica, estrutura ou narrativa definida. Era um medo moderno e reconhecível, o receio de estar num lugar que deveria ser normal, mas que se apresenta deslocado, infinito e sem contexto. 

A série de vídeos criada por Kane Parsons, com o seu realismo digital e lógica de “found footage”, popularizado por Blair Witch Project (1999), reforçou essa sensação de autenticidade, apresentando os Backrooms como se fossem registos acidentais de algo que não devia ser visto.

A adaptação cinematográfica tenta fazer aquilo que o mito sempre resistiu a fazer: organizar o indizível. Ao transformar este universo fragmentado numa história coerente, com personagens, motivações e uma estrutura narrativa tradicional, o filme ganha em legibilidade o que perde em assombro. É aqui que, para mim, ele se afasta da essência dos Backrooms. O que era assustador precisamente por não ter explicação passa a ser enquadrado numa lógica interna que procura justificar a existência daquele espaço. 

A fronteira entre o real e a loucura, que no mito original é difusa e quase irrelevante, torna-se um elemento central da narrativa, mas sem a densidade necessária para sustentar essa deslocação. A psicologização do fenómeno acaba por diluir o impacto do terror liminal, que sempre funcionou melhor como uma anomalia sem causa, do que como um trauma com explicação.

Visualmente, o filme mantém a estética característica dos Backrooms, com os seus amarelos desconfortáveis e corredores labirínticos. Há momentos em que a tensão é eficaz, sobretudo quando a câmara se perde em espaços vazios que parecem repetir-se infinitamente. No entanto, aquilo que funciona em vídeos curtos ou imagens isoladas nem sempre sobrevive à duração de uma longa-metragem. A monotonia estética, que deveria reforçar o desconforto, por vezes transforma-se em fadiga visual. O terror deixa de ser ameaça permanente e passa a ser repetição: uma sucessão de corredores, paredes e salas semelhantes, onde a ausência de variação reduz o impacto emocional.

O filme tenta também integrar elementos da mitologia criada online, mas ao fazê-lo fixa um universo que sempre viveu da ambiguidade. O folclore colaborativo dos Backrooms prosperou precisamente porque não havia respostas definitivas. Cada utilizador podia imaginar um novo nível, uma entidade diferente, uma regra absurda. Ao transformar esse caos criativo numa narrativa fechada, o filme limita o potencial interpretativo e, inevitavelmente, perde parte da magia que tornou o conceito tão popular. A tentativa de tornar plausível aquilo que nasceu como meme acaba por revelar a fragilidade do próprio material quando submetido às exigências de uma história tradicional.

Ainda assim, seria injusto dizer que o filme falha por completo. O que ele faz bem é provar que os Backrooms não eram apenas uma brincadeira de internet, mas um verdadeiro imaginário visual capaz de sobreviver ao salto para o cinema. Há, no seu desconforto espacial, uma inteligência estética clara. O filme compreende que o medo aqui não nasce do monstro, mas da arquitetura. Não são os ataques, mas as perseguições, nunca a ação, mas a espera daquilo que vem a seguir. O problema é que, ao querer acrescentar psicologia e estrutura dramática a um fenómeno que era forte precisamente pela sua impessoalidade, a adaptação domesticou parte da sua estranheza.

Importa ainda notar que o filme é realizado por Kane Parsons, o criador original do universo Backrooms. Essa continuidade autoral é relevante porque reduz a distância entre o meme e a sua adaptação cinematográfica, mas também levanta uma questão curiosa. Seria do interesse de Parsons canibalizar o seu fenómeno e dessa forma capitalizar este universo? Ao transformar o meme numa longa-metragem, o resultado é maior legitimidade, mas não sem abdicar da liberdade das redes sociais, onde vive o fenómeno, para cumprir as regras da narrativa cinematográfica. Parsons conhece melhor do que ninguém a força da imagem original, mas o cinema obriga-o a fazer o que a internet sempre evitou, o explicar, estruturar e concluir a narrativa.

O filme ainda conta com um elenco de peso, liderado por Chiwetel Ejiofor (12 Years a Slave) e Renate Reinsve (The Worst Person in the World), dois atores capazes de dar corpo emocional a uma história que, no papel, poderia facilmente resvalar no vazio abstrato. Essa escolha é inteligente porque aterra o absurdo numa base dramática credível. Porém, também reforça a sensação de que o filme está mais interessado em transformar o mito numa narrativa prestigiada, do que em preservar a sua estranheza original. Em vez de deixar que o espaço fale por si, a adaptação insiste em mediá-lo através de personagens traumatizados e psicologicamente legíveis.

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