Nas últimas décadas, títulos como 007 Legends ou GoldenEye 007: Reloaded tentaram captar a essência do agente secreto mais famoso do mundo, mas falharam redondamente no que diz respeito à qualidade exigida. Para a comunidade de fãs do universo, o lendário GoldenEye 007, lançado em 1997 para a Nintendo 64, continua a ser a grande referência deste universo nos videojogos, definindo o padrão de como traduzir a tensão, a espionagem e a ação cinematográfica de Ian Fleming para o formato interativo.
Quase 30 anos depois de GoldenEye, a IO Interactive pretende herdar esse histórico e reavivar o interesse por James Bond nos videojogos. O estúdio dinamarquês, conhecido sobretudo pela série Hitman, pretende utilizar toda a experiência acumulada com o Agent 47 para dar vida a um jovem Bond, acabado de ser recrutado pelo MI6.
O meu nome é Bond, o jovem James Bond!
Em vez de se apoiar na imagem estabelecida de Daniel Craig ou de qualquer outro ator da era clássica do cinema, 007 First Light aposta numa direção mais ousada. Esta é a história de origem focada num James Bond jovem, talentoso, mas ainda impulsivo e sem o refinamento habitual. O protagonista é interpretado e dobrado pelo ator irlandês Patrick Gibson, conhecido recentemente pelo seu papel como o jovem Dexter Morgan na prequela Dexter: Original Sin, interpretando o filho do conhecido serial killer.
A prestação de Gibson oferece uma vulnerabilidade e rebeldia ligadas ao herói, cuja repercussão na comunidade de fãs foi imediata. Muitos estão a pedir em petições online que o ator seja mesmo o próximo James Bond no cinema, face ao impasse da MGM e da Amazon em anunciar o próximo capítulo cinematográfico da saga.
A aventura começa de forma linear, através de uma missão introdutória que mostra as ações de Bond enquanto militar e como a sua audácia chamou a atenção do MI6. Logo a seguir, somos apresentados a um dos melhores tutoriais de sempre da história dos videojogos, perfeitamente integrado na narrativa, onde os jovens aspirantes a agentes 00 treinam pontaria com armas de fogo, condução defensiva e técnicas de combate corpo a corpo.
É neste ambiente de treino que conhecemos o mentor de Bond, John Greenway, interpretado pelo ator Lennie James (conhecido pelo seu papel de Morgan Jones em The Walking Dead e Fear the Walking Dead), que serve como a bússola moral e tática do novato no seu caminho para obter o cobiçado estatuto “00” e travar uma conspiração global. Cada filme deste universo é polvilhado por diferentes vilões memoráveis e para este título, o estúdio quis oferecer um antagonista que pretende ser ao mesmo tempo carismático, neste caso protagonizado pelo artista de rock, Lenny Kravitz. Ainda assim, a sua personagem foi pouco explorada neste primeiro encontro, mas a IO Interactive já prometeu o seu regresso no futuro.
Narrativa repleta de ação e reviravoltas como um episódio oficial da saga
O respeito pela atmosfera cinematográfica da série estende-se à sua luxuosa apresentação. O jogo conta com uma sequência de abertura espetacular aos moldes dos filmes, acompanhada pela canção original “First Light”, interpretada por Lana Del Rey e composta em parceria com David Arnold, compositor veterano das bandas sonoras oficiais de Bond no cinema. Para além disso, a banda sonora geral do jogo foi entregue à dupla musical The Flight, que consegue evocar com mestria a sofisticação e a tensão exigidas pela espionagem dos filmes.
O glamour característico da série está sempre presente, manifestando-se em festas de luxo onde nos infiltramos e no design elegante de cada cenário criado pelo motor proprietário do estúdio, o Glacier, que alimenta a série Hitman. Este motor continua a demonstrar a sua força ao apresentar mapas altamente detalhados, repletos de NPCs e com elevados níveis de interação.
Ao todo, a campanha oferece 10 missões muito elaboradas e de tamanho considerável que levam o jogador a locais globais como a Eslováquia, Londres, Islândia e Antártida. A estrutura dos mapas equilibra de forma exemplar momentos de exploração livre, resolução de puzzles, infiltração furtiva e sequências de ação brutal, incluindo trechos verticais de escalada que remetem diretamente para a série Uncharted.
Influenciado pela filosofia de design de Hitman, o jogo dá grande liberdade de abordagem, mas com uma limitação crucial: ao contrário do Agente 47, que podia eliminar alvos quando queria, o uso de armas de fogo em 007 First Light está estritamente condicionado. O jogador só pode disparar quando o sistema “Licence to Kill” é ativado em momentos específicos da história, obrigando a que o resto da infiltração seja feito com métodos não-letais e maior astúcia.
As armas e gadgets de Bond
O combate desarmado assume um papel central e de grande profundidade, inspirando-se no sistema de Free Flow da série Batman: Arkham. Os confrontos físicos exigem bastante atenção ao ritmo, exigindo que o jogador se esquive de ataques sinalizados a vermelho, bloqueie golpes a amarelo e ataque no momento certo. É preciso ter atenção ao cenário para encontrar qualquer coisa à mão para atacar o inimigo, atordoá-lo por breves momentos e criar formas criativas de nos livrarmos do perigo, à imagem do que acontece nos filmes.
Detalhes minuciosos, como arrancar capacetes da cabeça dos guardas ou desarmá-los puxando-lhes as armas das mãos durante os tiroteios, tornam a ação bastante satisfatória. O sistema de cobertura funciona bem e muitos dos cenários destrutíveis tornam a ação mais dinâmica, sendo preciso procurar constantemente um novo local seguro.
Fora do combate, quando estamos a explorar áreas reservadas e proibidas, o improviso em situações em que James Bond é apanhado foi muito bem implementado. O “Sistema de Blefe” permite que o jogador tente render-se falsamente ou invente uma mentira para convencer o guarda a deixar-nos dar a volta ou simplesmente a retirá-lo do lugar. Pode mesmo criar uma janela de distração de alguns segundos para neutralizar o inimigo ou fugir.
Junte-se a isto os gadgets, que fazem parte da imagem de marca de Bond, desenhados pelo inventor Q. Há um relógio com laser, capazes de fazer hack a terminais ou ligar aparelhos eletrónicos à distância, criando mais uma vez oportunidades de distração dos inimigos durante a ação furtiva. Mais uma vez, o estúdio adaptou algumas das ações possíveis em Hitman, que façam os inimigos mudar de sítio, desde usar um isqueiro num caixote de lixo ou ativar drones. No início de cada capítulo podem equipar até quatro destes gadgets, uns a oferecer mais oportunidades de interação que outros, mas abre diferentes possibilidades.

Apesar de a ação com armas não ser o principal foco do jogo, nos momentos em que acedemos ao gunplay este é altamente satisfatório. As munições não abundam, entre a pistola com silenciador de Bond, metralhadoras, snipers e caçadeiras que podemos utilizar dos inimigos. E mais uma vez, quando se acabam as munições, nada como atirar a arma à cara do inimigo para o distrair e atacar com os punhos.
Apesar da excelência da ação, o jogo não está isento de falhas. O ponto mais fraco reside na inteligência artificial dos inimigos, que deixa bastante a desejar. A sua capacidade visual e auditiva é inconsistente, permitindo muitas vezes eliminar guardas a poucos passos de distância dos seus colegas sem levantar suspeitas. Em situações de combate aberto direto, a IA também falha em criar estratégias inteligentes para flanquear o jogador.
As sequências de condução e perseguição de carros, embora visualmente apelativas, carecem do dinamismo e da velocidade frenética esperados de uma grande perseguição de espionagem. Adicionalmente, os tempos de carregamento ao recomeçar a partir de checkpoints ou após morrer são notavelmente lentos, quebrando ligeiramente o ritmo da experiência.
A campanha apresenta cerca de 20 horas de duração e penso que seja a duração ideal para este tipo de jogo narrativo e linear. Ainda assim, a IO Interactive espalhou diversos itens colecionáveis nas missões que devem ser encontrados para completar os níveis a 100%. Em cada missão há ainda diversos desafios e modificadores de objetivos semelhantes às Escalations de Hitman, incentivando a repetir os níveis para melhorar as suas pontuações.
Há ainda o modo TacSim, um simulador virtual acessível no menu onde os jogadores podem enfrentar operações de treino para testar a sua perícia e desbloquear fatos alternativos e outros itens cosméticos para Bond. Os objetivos são bastante interessantes e desafiantes, tais como eliminar os inimigos de diferentes formas, por exemplo.