O género dos jogos de combate atravessa, em 2026, um momento de renovação estratégica. Depois de anos dominados por títulos como Street Fighter, Tekken ou Mortal Kombat e por uma certa saturação de mecânicas complexas, a indústria procura um novo fôlego através de modelos game as a service que garantam longevidade, atualizações constantes e uma base competitiva estável. Os estúdios procuram criar jogos de qualidade, com os olhos postos nos eSports do tema, mas sobretudo, ligados a universos conhecidos para angariar fãs mais rapidamente.
Recentemente tivemos jogos como Invincible VS e Avatar Legends, inspirados pelas séries de animação correspondentes, assim como 2XKO da Riot Games, uma aposta baseada no universo de League of Legends. Este último arriscou mesmo o formato free-to-play, semelhante ao seu famoso MOBA.
É neste contexto que Marvel Tōkon: Fighting Souls, produzido pela Arc System Works em parceria com a Sony, se apresenta não apenas como mais um fighter de super-heróis, mas como uma aposta clara da dona da PlayStation num produto capaz de sustentar uma comunidade ativa a longo prazo, com season passes, DLCs planeadas e modos que incentivam o regresso frequente dos jogadores.
Fusão de culturas
A comparação com Marvel vs. Capcom é inevitável: ambos partilham o ADN dos combates em equipa (Tag Team), o espetáculo visual e a fidelidade ao universo Marvel. Mas Tōkon distingue-se ao adotar um sistema 4×4 com saúde partilhada, mecânicas de tag dinâmicas e uma estética fortemente influenciada pela cultura japonesa, algo que se reflete não só no nome como na própria conceção artística das personagens.
O título Marvel Tōkon: Fighting Souls carrega no seu nome uma intenção clara de fusão cultural: “Tōkon” é uma palavra japonesa que significa “espírito de luta” ou “alma combativa”, um termo frequentemente associado a competições desportivas e a narrativas de superação no Japão. Esta escolha não é inocente, pois reflete a colaboração entre a Marvel, ícone do entretenimento ocidental e a Arc System Works, estúdio japonês com décadas de experiência em jogos de combate, conhecida por séries como Guilty Gear e BlazBlue.
O resultado é uma tradução visual e narrativa do universo Marvel para uma linguagem estética japonesa. As personagens mantêm as suas identidades icónicas, mas são reinterpretadas com traços de anime, cores vibrantes e detalhes que remetem para a cultura “tokusatsu” e manga. O exemplo mais evidente é a armadura do Iron Man, que adota um design reminiscente dos Power Rangers, com linhas mais angulares, cores saturadas e uma presença quase mecânica que o aproxima dos mechas japoneses. Esta abordagem estética do jogo não é apenas cosmética, oferecendo toda a experiência, desde as animações de combate até às cutscenes, que misturam sequências animadas com páginas de banda desenhada, criando uma ponte entre a banda-desenhada americana e o mangá japonês.
A Arc System Works, responsável pela produção de Marvel Tōkon: Fighting Souls, é um dos estúdios mais respeitados no género dos jogos de luta, com um historial que inclui séries aclamadas como Guilty Gear, BlazBlue e Dragon Ball FighterZ. A sua experiência é visível em cada aspeto do jogo, desde a fluidez das animações até à complexidade dos sistemas de combate, que equilibram acessibilidade para iniciantes com profundidade táctica para jogadores experientes. Ou seja, é um jogo fácil de pegar e jogar, sobretudo na possibilidade de executar combos com finalizações com apenas um botão; mas altamente complexo para os jogadores que desejam dominar cada técnica das personagens.
Ainda assim, estamos a falar de um jogo com uma curva de aprendizagem íngreme para jogadores casuais. Considerando que se trata de um jogo onde se joga sempre em equipa, nota-se igualmente um certo desequilíbrio entre algumas composições. Os jogadores que rapidamente encontrarem as combinações perfeitas, certamente terão mais vantagem nas partidas online.
A Arte do combate 4×4 em elenco de luxo
Em Tōkon, a Arc System Works aplica o seu conhecimento em mecânicas de tag team, combinando-as com inovações como o sistema de saúde partilhada entre os quatro membros da equipa, que obriga os jogadores a gerir não apenas os seus próprios recursos, mas também a sobrevivência coletiva do grupo. Esta abordagem cria um ritmo de jogo intenso, onde as decisões de substituição, os pedidos de ajuda e os ataques combinados são tão importantes quanto os combos individuais.
A experiência do estúdio em criar narrativas envolventes também se reflete no modo Episode, escrito em colaboração com o aclamado autor de comics Kieron Gillen, conhecido por trabalhos como Young Avengers, Uncanny X-Men e Eternals. Gillen, em parceria com Marc Sumerak e Yasuhiro Tashima, desenvolveu as campanhas narrativas para as cinco equipas principais do jogo, garantindo que cada história tenha peso emocional, momentos épicos e o humor característico do universo Marvel, especialmente em personagens como Deadpool e Spider-Man.
O jogo apresenta um elenco inicial de 20 personagens (mais uma secreta), divididas em cinco equipas de quatro elementos, cada uma com a sua própria narrativa no modo Episode. As equipas incluem os Fighting Avengers (Captain America, Iron Man, Black Panther/Shuri, Hulk), os Unbreakable X-Men (Storm, Magik, Wolverine, Danger), os Amazing Guardians (Spider-Man, Ms. Marvel, Star-Lord, Peni Parker), os Knights of Doom (Ghost Rider, Blade, Loki, Doctor Doom) e os Samurai Outriders (Deadpool, Magneto, Green Goblin, Carnage).

Cada personagem mantém o seu estilo de combate único, com armas e gadgets de assinatura, mas adaptados à estética anime e às mecânicas do jogo. O modo história, composto por cinco arcos narrativos, alterna entre sequências de combate intensas e cutscenes que misturam animação anime com páginas de banda desenhada, criando uma experiência visual dinâmica que, por vezes, faz com que uma batalha de 30 segundos seja seguida por quase 10 minutos de narrativa visual.
Esta abordagem, embora épica, pode tornar o ritmo do jogo irregular, especialmente para jogadores que preferem ação contínua. No entanto, a qualidade do voice acting e a fidelidade às personagens compensam esta desvantagem, tornando cada arco narrativo uma experiência envolvente. Considera este formato uma espécie de tutorial, uma vez que acabam por rodar as 20 personagens, antes de entrarem nas competições.
Fácil de pegar e jogar, mas tem uma curva de aprendizagem lenta para dominar
A jogabilidade de Marvel Tōkon: Fighting Souls é marcada por uma velocidade extrema, que pode tornar difícil acompanhar todos os movimentos, substituições e combos desencadeados durante um combate, sobretudo nas primeiras horas. Inicialmente, os jogadores podem sentir-se tentados a “esmagar botões”, mas o jogo revela-se rapidamente como uma experiência tática, que exige timing preciso, estratégia defensiva e uma gestão cuidadosa dos recursos da equipa. A defesa constante é crucial para evitar combos devastadores e a capacidade de substituir personagens ou pedir ajuda no momento certo pode determinar o resultado de uma batalha.
Além do modo história, o jogo oferece vários modos alternativos, como o Arena, onde os jogadores escolhem caminhos para combater equipas até ao boss final, desbloqueando cores alternativas para as personagens. O modo Survival coloca os jogadores contra equipas sequenciais, permitindo absorver poderes de personagens derrotadas para melhorar estatísticas como ataque e defesa.
O modo Arcadia Rumble, por sua vez, apresenta uma abordagem mais descontraída, com os jogadores a controlarem versões chibi das personagens num mapa explorável, onde melhoram as suas equipas e enfrentam outros jogadores num formato semelhante ao de Street Fighter. Ainda assim, considero que o sistema de recompensas deveria ser mais dinâmico, de forma a manter os jogadores sempre interessados em desbloquear itens ou fatos alternativos, ligados ao universo.
As arenas de combate, embora vistas de uma perspetiva 2D side-scrolling, são muito detalhadas e possuem profundidade, repletas de pequenas animações. Os cenários são destrutíveis e permitem saltar entre diferentes locais, uma ideia reminiscente dos mais recentes títulos de Mortal Kombat. O jogo conta com cerca de três cenários interligados, cada um com a sua própria temática e elementos destrutíveis, adicionando uma camada estratégica aos combates.
Game as a service e componente online
O futuro de Marvel Tōkon: Fighting Souls como game as a service é uma das suas maiores apostas. A Sony e a Arc System Works planeiam expandir o jogo através de DLCs, com um season pass que inclui quatro novas personagens e um novo cenário no primeiro ano. Phoenix Cyclops é a primeira personagem confirmada para o season pass, com lançamento previsto entre outubro e dezembro.
Além disso, o jogo foca-se fortemente na competição multijogador online, com partidas PvP que destacam a originalidade dos combates tag team 4×4. Esta abordagem, combinada com atualizações regulares e eventos sazonais, visa manter a comunidade ativa a longo prazo, algo essencial para o sucesso de um modelo games as a service. Seja como for, o pacote inicial já vale o preço pedido, tanto pelo elenco, como pelos conteúdos.
Com a combinação de uma barra de energia única para as quatro personagens, o estúdio encontrou um formato muito interessante para a composição da equipa. Com a barra de energia a chegar ao fim, o round termina, ao contrário de outros Tag Teams, onde se pode gerir cada personagem ativa.
Os confrontos online são sempre realizados à melhor de três. Este permite aos jogadores terem acesso apenas a uma personagem de suporte no primeiro round e aquele que perde vai adicionando um novo elemento ao grupo. É uma forma de nivelar os combates e permitir alguns “come backs” interessantes. Ou seja, uma equipa que esteja a perder por duas rondas consegue ter acesso total ao grupo, conseguindo executar todos os combos do conjunto.