Pragmata é o novo IP da Capcom

Ficção científica ousado.

Ficha de jogo

Resumo deste artigo

Num ano em que a Capcom recupera o seu lado mais criativo, Pragmata surge como a experiência sci‑fi mais ousada do estúdio. É um jogo que combina combate estratégico, hacking tático e uma relação emocional inesperada entre duas personagens presas numa Lua fragmentada.
Num ano em que a Capcom recupera o seu lado mais criativo, Pragmata surge como a experiência sci‑fi mais ousada do estúdio. É um jogo que combina combate estratégico, hacking tático e uma relação emocional inesperada entre duas personagens presas numa Lua fragmentada.

Num ano em que a Capcom já demonstra uma confiança criativa impressionante, com lançamentos como Resident Evil Requiem e Monster Hunter Stories 3, surge Pragmata como mais uma prova de que o estúdio está a recuperar o seu lado mais experimental. Este novo título remete diretamente para os clássicos de ação da editora japonesa, aqueles jogos que arriscavam, que misturavam géneros e que apostavam em mecânicas originais para criar experiências marcantes. Em Pragmata, essa ousadia manifesta-se sobretudo no sistema de hacking que redefine a forma como o combate funciona e na relação emocional entre as duas personagens principais.

A história acompanha um astronauta misterioso Hugh na Lua e Diana, uma rapariga artificial com capacidades cognitivas e tecnológicas muito acima do normal. Ambos ficam presos numa versão distorcida da Lua, onde a realidade parece fragmentada e a própria gravidade oscila entre zonas de normalidade e ausência total de peso. A ligação entre os dois é o centro emocional do jogo: ele é o corpo que enfrenta o perigo, ela é o cérebro que analisa, manipula e transforma o ambiente. Esta parceria não é apenas mecânica, é uma relação construída através de pequenos gestos, dependência mútua e uma crescente sensação de que precisam um do outro para sobreviver.

Sistema de combate original com puzzles 

É precisamente dessa relação que nasce o sistema de combate mais original do jogo. Cada inimigo funciona como um puzzle, exigindo que o jogador combine a força física do astronauta com os módulos de hacking da Diana. Estes módulos, representados por chips que podem ser equipados e trocados, permitem manipular os adversários e o próprio campo de batalha: há chips que paralisam inimigos, outros que aplicam buffs ao protagonista, alguns que lançam debuffs que expõem pontos fracos, e até módulos capazes de alterar a gravidade local ou criar oportunidades táticas inesperadas. 

O resultado é um combate que recompensa a criatividade e leitura rápida da situação, evitando a repetição típica de muitos jogos de ação. Cada inimigo oferece padrões aleatórios na sua matriz de hacking, o que faz com que cada encontro seja único. O mesmo se aplica aos bosses, que oferecem táticas diversificadas, alterando o seu comportamento em diferentes fases do combate. São criaturas gigantes, num design que a Capcom sempre foi exímia em concretizar. 

Inicialmente, o sistema de combate pode ser confuso. O facto dos disparos da personagem praticamente não tirarem energia aos inimigos sem a intervenção de Diana. O sistema faz com que tenhamos diferentes coisas a pensar durante os encontros. O posicionamento da personagem para se esquivar aos encontros dos inimigos, ao mesmo tempo que executa a combinação na matriz, usando os quatro botões de símbolos. E claro, procurar atingir os inimigos, que ainda por cima requerem que se explorem os pontos fracos. 

Mas à medida que a aventura evolui, mais chips vão sendo desbloqueados e equipados, permitindo curar, causar dano em conjunto, atordoar, entre muitas outras ações. Por outro lado, os inimigos mais fortes podem bloquear o sinal da grelha ou criar espaços armadilhados, obrigando a ter ainda mais atenção. Assim, o desafio inicial é habituar-nos a esta combinação de elementos de combate. Mas tudo fica natural mais à frente, quando começam a aparecer criaturas mais desafiantes. 

Visualmente, Pragmata é um dos projetos mais impressionantes da Capcom nos últimos anos. O motor gráfico recria a Lua com um detalhe quase fotográfico: superfícies poeirentas, estruturas metálicas abandonadas, iluminação fria e um horizonte sempre melancólico que reforça a sensação de isolamento. As secções em gravidade zero são particularmente marcantes, com animações fluidas e físicas credíveis que tornam a exploração e o combate flutuante num dos pontos altos da experiência. O design dos inimigos, biomecânico e perturbador, contribui para a atmosfera estranha e enigmática que define o jogo. Em muitas sequências tem um ar perturbador de Dead Space, noutras o companheirismo das personagens de um The Last of Us. A ação também pisca o olho aos momentos over the top de um jogo da Platinum Games. 

Apesar de todos estes méritos, Pragmata não é isento de fragilidades. O ritmo pode oscilar entre momentos de grande intensidade e secções demasiado contemplativas, a curva de aprendizagem do sistema de chips pode afastar jogadores que preferem ação mais direta, e a narrativa fragmentada. O sistema de navegação, que permite regressar à base constantemente, funciona muito bem para fazer backtracking e desbloquear itens que deixaram para trás, para completar o jogo a 100%. Mas no geral, estamos perante um jogo bastante linear.  

A base, onde podemos dar prendas a Diana, elementos de colecionismo relacionados com a Terra, que deixam a jovem androide apaixonada pelo planeta azul, serve também para fazer upgrades na build da personagem. Hugh consegue ter acesso a um vasto arsenal, que pode ser equipado na base. Estes são acompanhados de chips que melhoram a eficácia de ação e sobrevivência. Existem outros colecionáveis, como documentos que ajudam a perceber o que aconteceu na colónia e moedas para desbloquear mais chips num robot chamado Cabin. 

No geral, Pragmata destaca‑se como uma obra que recupera o espírito mais ousado da Capcom: um jogo que não tem medo de experimentar, que combina emoção, estratégia e espetáculo visual, e que reforça a ideia de que este é um dos anos mais fortes do estúdio na última década. É uma experiência sci‑fi singular, imperfeita, mas memorável. 

Conclusão

Pragmata destaca‑se como uma obra que recupera o espírito mais ousado da Capcom: um jogo que não tem medo de experimentar, que combina emoção, estratégia e espetáculo visual, e que reforça a ideia de que este é um dos anos mais fortes do estúdio na última década. É uma experiência sci‑fi singular, imperfeita, mas memorável.

Pragmata é o novo IP da Capcom

7

Pontos Positivos

  • Sistema de combate original, baseado em hacking e resolução de puzzles
  • Relação emocional forte entre Hugh e Diana
  • Design visual impressionante, com recriação da Lua em detalhe
  • Inimigos e bosses com padrões variados
  • Atmosfera sci‑fi distinta, com influências de Dead Space e The Last of Us
  • Base funcional e útil, com upgrades, colecionáveis e evolução da build

Pontos Negativos

  • Curva de aprendizagem elevada, especialmente no sistema de chips
  • Ritmo irregular
  • Narrativa fragmentada
  • Linearidade geral da campanha