Já sabia que Silent Hill 2 era o melhor jogo da série de survival horror da Konami, o que não esperava era, depois de terminar este remake, que se trata de um dos melhores títulos do género. É um jogo verdadeiramente assustador, percebendo agora de onde vem a inspiração de Shinji Mikami para Evil Within. Já não sentia alguns calafrios de medo, muito provavelmente desde que joguei o velhinho The Suffering.
Numa altura em que a série já recebeu o próximo capítulo, Silent Hill f, este remake mostra a capacidade da Bloober Team em criar histórias de horror, prestes a lançar o seu próximo jogo original, Cronos – The New Dawn.
Olhando para este remake do clássico percebe-se que é uma proposta atual, com mecânicas de ação na terceira pessoa fluidas e divertidas. É um trabalho do mesmo campeonato que a Capcom fez com Resident Evil 2 e 3, sabendo-se já que devido ao seu sucesso, o estúdio embora não esteja envolvido no próximo capítulo original, já obteve luz verde para reformular a primeira aventura da série.
Aventura de terror moderna e intensa
O remake apresenta uma transformação profunda face ao clássico de 2001, começando pela mudança estrutural mais evidente, a perspectiva de jogo. O original utilizava câmaras fixas, muitas vezes posicionadas de forma a limitar o campo de visão e aumentar a sensação de vulnerabilidade. No novo título, a Bloober Team optou por uma abordagem moderna na terceira pessoa, com a câmara sobre o ombro, aproximando a experiência dos remakes recentes de Resident Evil, de forma a oferecer maior controlo ao jogador. Esta alteração tem impacto direto no tom, em que a tensão claustrofóbica do original dá lugar a uma experiência mais fluida e previsível, ainda que mais acessível.
Também o combate foi reformulado. No jogo de 2001, James era deliberadamente desajeitado, reforçando a sensação de desespero. O remake introduz esquivas, mira mais precisa e troca rápida de armas, tornando os confrontos mais dinâmicos e menos dependentes da fragilidade do protagonista. Enfrentar inimigos já não transmite a mesma impotência, o que altera subtilmente a identidade de “survival horror psicológico” do original, algo que é controverso entre a comunidade de fãs.
Além disso, várias áreas foram expandidas ou redesenhadas, com novos puzzles e até mais inimigos, mantendo a estrutura narrativa mas oferecendo surpresas tanto aos novos jogadores como aos veteranos. Há também mudanças na ordem de certos eventos e encontros, criando uma experiência familiar mas não totalmente previsível.
A história foca-se em James, um homem que vive assombrado com a morte da sua esposa Mary, sendo atraído para Silent Hill, acreditando que possa estar viva. A cidade mantém todas as características da série, onde o nevoeiro é uma das imagens de marca. Mas o estranho é que a cidade está praticamente abandonada e decadente, povoada por estranhas criaturas que atacam o protagonista à vista. O rádio, que emite estática na presença de inimigos, é outro elemento que os fãs reconhecem.
Como seria de esperar, James terá de explorar a cidade, num labirinto de caminhos bloqueados, portas fechadas, com a necessidade de recolher chaves e outros itens que possam ser usados para abrir caminho. Muitos deles requerem completar puzzles desafiantes e muito inteligentes, que obrigam a encontrar objetos e a descobrir como completar.
James está munido de apenas um cano para repelir os inimigos, assim como algumas armas de fogo que vai encontrando, como uma pistola, caçadeira ou uma espingarda. A gestão de munições é, obviamente, vital para sobreviver, devendo-se gastar apenas como último recurso. Há que saber quais os combates a enfrentar e quando deves fugir para poupar as balas.

Este é um jogo de terror pesado, não apenas no ambiente decadente e putrificado da maioria dos cenários, mas pela forma envolvente como o áudio funciona. As músicas são pesadas, mas são os ruídos acutilantes que nos fazem saltar da cadeira. Metade do horror é o áudio e por isso os engenheiros de som do estúdio estão de parabéns. As aberrações que encontramos pelo caminho, muitos deles bosses, são excelentes.
Já os inimigos normais deixam a desejar pela pouca variedade. Existem os que se arrastam e espirram ácido ao jogador e as enfermeiras desfiguradas que são verdadeiramente assustadoras. Por fim, aqueles que são compostos por apenas braços, que se escondem e tentam passar despercebidos no cenário para nos dar aquele “buuu” muito fácil de fazer saltar da cadeira. Mas é claro que a presença do mítico Pyramid Head é o ponto alto da aventura, seja nos confrontos ou simples fugas.
Como o remake altera o tom “cru” do jogo original
O design dos cenários são muito inteligentes, oferecendo versões do mesmo lugar numa perspetiva “normal” e outra totalmente decadente. Poupa-se na arquitetura mas apresenta um ambiente diferente e bastante detalhado. Ao longo da aventura vamos encontrar personagens misteriosas, sim humanas, mas que acabam por ser ao mesmo tempo bizarras, deixando a pensar que a qualquer momento vão surtar. São reais ou fruto da imaginação de James? Nem nós sabemos muitas vezes responder.
A direção artística é uma das mudanças mais debatidas desta nova versão. O original recorria a limitações técnicas, como o nevoeiro denso, para criar atmosfera, mas esse “véu” também funcionava como elemento psicológico, deixando espaço para a imaginação do jogador. O remake substitui essa ambiguidade por ambientes altamente detalhados, com iluminação avançada, texturas ricas e cenários mais nítidos graças ao Unreal Engine 5 e tecnologias como Lumen e DLSS.

Este salto técnico torna Silent Hill mais tangível e realista, mas também reduz parte da estranheza onírica que caracterizava o original. A clareza visual do remake pode diminuir a sensação de mistério e desconforto que o nevoeiro e a baixa definição do jogo de 2001 ajudavam a criar. Ainda assim, a Bloober Team procurou manter a opressão atmosférica, recriando a cidade com maior detalhe sem perder a sua identidade decadente.
As personagens também receberam redesigns completos, com modelos mais naturais e expressivos. James, por exemplo, apresenta mais detalhes na roupa e maior nuance facial, enquanto Maria surge com novos acessórios e uma estética mais contemporânea. Estas mudanças reforçam o realismo, mas inevitavelmente alteram a leitura emocional das personagens para quem conhece o original.
O voice acting é outra área onde o remake se distancia claramente do original. Em 2001, as interpretações vocais eram rígidas, quase mecânicas, algo que, paradoxalmente, contribuía para o ambiente desconfortável e surreal do jogo. No remake, todas as cutscenes foram regravadas com motion capture moderno e performances mais naturais, com maior expressividade facial e corporal.
Este profissionalismo traz maior clareza emocional às cenas, tornando os diálogos e as interações mais credíveis. No entanto, esta evolução também remove parte da “estranheza” que tornava o original tão perturbador, onde a falta de naturalidade reforçava a sensação de estar preso num pesadelo psicológico. Assim, o remake oferece uma interpretação mais cinematográfica, mas menos ambígua, uma troca que pode agradar a novos jogadores, mas, mais uma vez, dividir os fãs antigos.