Resonance: A Plague Tale Legacy mostra a Asobo no seu auge técnico e artístico

Uma excelente prequela.

Ficha de jogo

Resumo deste artigo

Resonance: A Plague Tale Legacy marca uma mudança ousada na série, trocando a furtividade pela ação cinematográfica. A Asobo entrega uma aventura visualmente deslumbrante, guiada pela força de Sophia, que já tinha aparecido na aventura anterior.
Resonance: A Plague Tale Legacy marca uma mudança ousada na série, trocando a furtividade pela ação cinematográfica. A Asobo entrega uma aventura visualmente deslumbrante, guiada pela força de Sophia, que já tinha aparecido na aventura anterior.

O estúdio francês sediado em Bordéus, Asobo Studio, tem vindo a afirmar-se como uma das equipas mais versáteis da indústria, capaz de alternar entre narrativas intimistas e projetos de enorme escala tecnológica. O seu trabalho na recuperação de Flight Simulator é a prova da forma como o estúdio integra tecnologia de ponta nos seus projetos. A recriação meticulosa do mundo, o uso pioneiro de dados de satélite e as técnicas avançadas de volumetria transformaram o simulador no mais realístico disponível no mercado. 

A atenção ao detalhe, desde a modelação das aeronaves ao comportamento atmosférico, mostrou a capacidade do estúdio em trabalhar com sistemas complexos sem perder o foco na experiência do jogador. Esse domínio técnico acaba por refletir-se também em Resonance, onde a mesma sensibilidade visual e cuidado artístico se fazem notar em cada cenário.

Resonance: A Plague Tale Legacy marca uma viragem na jogabilidade, temática e personagens do universo. Embora seja o terceiro jogo da série, este afasta-se dos dois títulos anteriores ao trocar o foco nos puzzles e na furtividade por uma experiência mais direta, centrada na ação na terceira pessoa. 

A história acompanha Sophia numa aventura que decorre antes dos acontecimentos de Requiem, explorando a juventude da capitã que os jogadores conheceram como aliada de Amicia e Hugo. Aqui, Sophia surge ainda em formação, mas já com a determinação que a tornaria uma sobrevivente endurecida no futuro. Ao mesmo tempo, aprendemos a origem dos seus poderes e artefactos, com ligações místicas à mitologia do rei Minos, Teseu e a lenda do minotauro. 

Visuais de cortar a respiração

A jornada leva-nos por cenários de cortar a respiração. É impossível começar cada novo cenário sem contemplar o ambiente em redor e a profundidade das paisagens. A direção artística aposta em cores vivas e numa iluminação volumétrica que dá profundidade aos ambientes. Não consegui ignorar os detalhes das fachadas, das partículas no ar ou da fauna que atravessa o cenário. Pássaros, morcegos, flamingos e gaivotas ajudam a dar vida ao mundo, mesmo que a vegetação, por vezes, não reaja à passagem das personagens e acabe por criar algum clipping. A navegação por um canal numa gôndola cria uma das sequências mais bonitas do jogo, graças à iluminação e aos reflexos na água.

O grafismo é impressionante, reforçado por modelos de personagens com feições muito detalhadas, sobretudo nas cutscenes, onde a captura de movimentos permite transmitir emoções subtis. Tanto ao nível das cinemáticas, como dos gráficos em geral, este será, possivelmente, um dos jogos mais bonitos desta geração. Sobretudo com todas as opções em ultra num PC recente. 

As transições entre as cutscenes e o gameplay são muito suaves, contribuindo para um tom cinematográfico que se mantém ao longo de toda a experiência. Há espaço para humor, para drama e para sequências de fuga cheias de adrenalina, que ajudam a variar o ritmo. Além disso, o ecrã mantém-se bastante limpo de ícones e barras de energia na exploração, aparecendo apenas nos combates ou quando necessário, reforçando o impacto visual. 

A nível sonoro, os cânticos e os instrumentos eruditos encaixam na perfeição. A música consegue ditar o ritmo do jogo, puxando pela tensão no combate e dando espaço para respirar nos momentos calmos. Eleva a narrativa e agarra a identidade que já conhecemos da série. Se há uma banda sonora que gostaria de ter na minha coleção, esta seria certamente uma delas. 

A narrativa decorre em Veneza e na ilha do Minotauro, que esconde segredos terríveis ligados ao desaparecimento do seu pai, nas expedições em busca de um tesouro. A estrutura do jogo é totalmente linear, dividida em capítulos que alternam entre combate, exploração e resolução de puzzles. 

Entre os puzzles e o novo foco nos combates

Mantendo um pouco da estrutura baseada numa dupla de personagens, como nos primeiros capítulos, a protagonista conta com a companhia da sua amiga Leni, durante grande parte da aventura. A personagem oferece comentários narrativos e ajuda tanto nos combates como nos desafios ambientais. Quando um puzzle demora demasiado tempo a ser resolvido, ela começa a dar pistas graduais (caso atives o prompt), o que mantém o ritmo sem quebrar a imersão. 

Sophia carrega uma esfera que ativa mecanismos dos puzzles das diversas áreas e que vai sendo atualizada ao longo da narrativa, permitindo resolver desafios baseados em alinhamento de cores ou projeção de luz em espelhos, por exemplo. Por vezes sentimos que a influência de Tomb Raider e Uncharted está bem presente nestes segmentos, recorrendo com frequência à cadência dos puzzles, ainda que não sejam exageradamente complexos ou desafiantes. O jogo nunca nos tenta prender demasiado tempo na mesma área, preocupando-se mais em contar uma história em tom de filme.   

O combate é um dos pilares desta nova abordagem à série, decorrendo em tempo real, com especial ênfase no timing tanto da defesa como a esquiva. O sistema de parry permite reduzir a stamina dos inimigos e abrir espaço para contra-ataques com o punhal. Quando um adversário se protege, é possível desferir um pontapé para quebrar a guarda e avançar com um golpe profundo. Há espaço para abordagens furtivas, eliminando inimigos silenciosamente por trás, e para improviso, já que objetos do cenário, como jarras ou armas largadas, podem ser arremessados durante o confronto. 

A sensação de impacto dos golpes é reforçada pelo som das espadas e pela animação dos movimentos, embora alguns movimentos ainda pareçam um pouco rígidos, sobretudo nos saltos e na navegação pelas plataformas. Os combates também não são muito desafiantes, com exceção de um ou outro confronto, mas felizmente funcionam sem recorrer às influências soulslike, habituais nos jogos atuais. A IA dos inimigos é funcional, embora pouco variada. A maioria dos confrontos segue padrões previsíveis, o que contribui para a acessibilidade do jogo, mas reduz a profundidade estratégica para aqueles que procuram um maior desafio.  

Ao longo da aventura, Sophia ganha “resonance points” que podem ser distribuídos numa árvore de talentos, desbloqueando novas habilidades de combate. O jogo não funciona como um RPG tradicional, mas recompensa a exploração com unidades escondidas que também concedem pontos. Além disso, é possível encontrar espadas com efeitos específicos, bem como talismãs, pulseiras, colares e anéis que oferecem pequenos buffs. Estes itens são visíveis nas cutscenes, reforçando a atenção ao detalhe do estúdio. No entanto, são fáceis de perder caso não explores bem os cenários à procura de alas secretas e baús.

O jogo apresenta alguns bugs ocasionais, como portas que abrem antes de uma animação terminar, deixando Leni a fazer gestos no ar. Há também pequenos problemas de câmara e raros crashes, mas nada que comprometa verdadeiramente a experiência. Ao nível do que se faz atualmente, o controlo da personagem parece um pouco “clunky”, com animações mais rígidas nos saltos entre plataformas, embora atenuadas por mecânicas como o uso de ganchos para pendurar entre abismos. 

Resonance: A Plague Tale Legacy é uma aventura divertida, imersiva e visualmente deslumbrante, com uma longevidade de 15 horas (sem a recolha de todos os colecionáveis) com um ritmo consistente. Apresenta uma forma diferente de jogar dentro deste universo, mas mantém ligações claras aos títulos anteriores, sobretudo através da evolução de Sophia. Mesmo com algumas falhas pontuais, oferece uma experiência marcante e confirma a capacidade da Asobo em reinventar a série sem perder o seu ADN.

Conclusão

Resonance: A Plague Tale Legacy é uma aventura divertida, imersiva e visualmente deslumbrante, com uma longevidade de 15 horas (sem a recolha de todos os colecionáveis) com um ritmo consistente. Apresenta uma forma diferente de jogar dentro deste universo, mas mantém ligações claras aos títulos anteriores, sobretudo através da evolução de Sophia. Mesmo com algumas falhas pontuais, oferece uma experiência marcante e confirma a capacidade da Asobo em reinventar a série sem perder o seu ADN.

Resonance: A Plague Tale Legacy mostra a Asobo no seu auge técnico e artístico

8

Pontos Positivos

  • Direção artística impressionante, com cenários belíssimos e iluminação
  • Modelação de personagens extremamente detalhada
  • Banda sonora envolvente, com cânticos e instrumentos eruditos
  • Combate fluido e acessível
  • Ritmo consistente ao longo das cerca de 15 horas
  • Variedade de puzzles e mecânicas

Pontos Negativos

  • Alguns movimentos de plataforma clunkies
  • IA dos inimigos pouco variada, com padrões previsíveis
  • Bugs pontuais
  • Cadência dos puzzles pode ser excessiva em alguns segmentos