A Ubisoft tomou um risco com o remake de um dos mais respeitados títulos da série Assassin’s Creed. Black Flag poderá não ser o mais popular, ficando-se atrás do segundo capítulo protagonizado por Ezio Auditore da Firenze, mas a escala de recriar os sete mares, transformando-se numa gigante aventura com piratas rapidamente ficou na lista de preferidos. Sendo o primeiro remake da série, depois de algumas versões remaster de outros títulos, Black Flag Resynced pretende oferecer uma experiência atual, construída de raiz com nova tecnologia.
Esta poderá ser uma abordagem excitante para a série e uma oportunidade para a Ubisoft organizar os lançamentos dos próximos títulos e trazer para a atualidade os excelentes jogos anteriores. A estes poderiam-se alternar novas aventuras principais, como o recente Assassin’s Creed Shadows ou futuramente o Code Hexe. E pelo meio, ainda se pode intercalar projetos “mais condensados” na forma de Mirage. Portanto, com lançamentos anuais, seria possível ter um jogo principal a cada três anos, um remake e um novo título em formato clássico, satisfazendo dessa forma os fãs. Tudo vai depender da aceitação de Black Flag Resynced, mas tenho a certeza que a qualidade deste remake vai torná-lo bem-sucedido.
Parkour reconstruído: mais fluidez, mais controlo
Assassin’s Creed Black Flag Resynced é um jogo mais bonito, colorido e detalhado que a versão original. As melhorias visuais são evidentes em tudo, desde a densidade da flora às novas paletes de cor do oceano, passando pelas texturas da roupa de Edward, gosto do detalhe dos padrões do capucho, que parece veludo. Os trajes revelam materiais mais ricos, tecidos mais convincentes e acessórios com maior peso visual.
O controlo da personagem também evoluiu, uma vez que Edward move‑se de forma mais fluida e responsiva, mesmo que por vezes ainda se note algum comportamento “clunky”, sobretudo quando a animação se prende em obstáculos ou ângulos apertados. O parkour é uma das áreas onde a reconstrução total do jogo mais se sente. Edward já não depende apenas das animações automáticas, uma vez que pode executar saltos manuais, fazer ejeções laterais ou até ejetar para trás ao ganhar balanço, permitindo trajetórias mais controladas e criativas. É uma opção que fica ao critério de cada jogador ativar.
As interrupções rápidas entre os movimentos reduzem a sensação de “atrito” entre as animações. Isto torna o fluxo de deslocação mais natural, enquanto as quedas têm novas animações e uma recuperação mais rápida, reforçando a ideia de um protagonista mais ágil e responsivo. O resultado é um sistema que respeita o espírito do original, mas que acompanha os padrões modernos da série, oferecendo ao jogador um controlo mais direto e uma sensação de domínio muito maior sobre o movimento.
Um remake mais belo, detalhado e moderno
A aventura oferece um retrato vibrante da chamada Era de Ouro da Pirataria, entre 1715 e 1722, um período em que o Mar das Caraíbas era palco de conflitos coloniais, rotas comerciais disputadas e figuras históricas. O jogo mantém esse enquadramento com rigor, trazendo de volta personagens reais como Edward Thatch (também conhecido pelo temível Barba Negra), Charles Vane, Benjamin Hornigold ou o temido caçador de piratas Robert Maynard, cuja rivalidade com Kenway ganha agora novo destaque nas missões adicionais.
Este contexto histórico é reforçado pela presença das várias potências europeias que disputavam o Atlântico, como os britânicos, espanhóis, franceses e, de forma particularmente interessante, pelos portugueses, que surgem em várias zonas do mapa e falam português europeu com surpreendente qualidade. Esta atenção ao detalhe cultural e linguístico ajuda a reforçar a sensação de que estamos a navegar num Caribe verdadeiramente cosmopolita, onde cada ilha reflete a complexidade histórica da época.
A mudança para o motor Anvil, o mesmo de Assassin’s Creed Shadows, dá a este remake uma base técnica moderna, mas mantém uma sensação familiar. A história é a mesma, muitas das mecânicas são reconhecíveis e há um conforto imediato para quem jogou o original. Ao mesmo tempo, Resynced introduz novidades suficientes para se sentir como um híbrido entre o clássico e o moderno, quase como aconteceu com Mirage. A fauna e a flora foram retrabalhadas, oferecendo animais mais integrados no ecossistema, florestas mais densas e ambientes mais vibrantes, no geral. Esta beleza faz com que as visitas às ilhas desertas não sejam tão estáticas, apresentando paisagens de cortar a respiração.
A interface e o HUD foram totalmente redesenhados, mais próximos dos jogos recentes e mais intuitivos, embora com uma decisão que poderá ser polémica: a remoção do minimapa. A exploração torna-se mais orgânica, reforçada por um oceano vasto, repleto de ilhas, tesouros e mapas que apontam para coordenadas escondidas. A ausência dos interlúdios da Abstergo confirma uma direção mais focada no período histórico, sem interrupções modernas. Até a estrutura narrativa mudou, pois já não há capítulos ou sequências rígidas, todas as sequências são seguidas, sem interrupções.
Combate naval mais intenso e tempestades transformadas
No mar, o jogo brilha ainda mais. Os combates navais são mais intensos, as tempestades mais envolventes, com ciclones e tons cinzentos que deixam apreensivos os marinheiros. O convés do Jackdaw ganha vida quando sofre danos, metendo água, vê‑se os detalhes da tripulação a tentar apagar os fogos nos combates, etc. As ondas gigantes inundam o barco com impacto visual impressionante e podem causar danos consideráveis no seu casco.
O jogo apresenta ainda efeitos de ray tracing de nova geração, um sistema de reflexos no mar mais realístico, com materiais PBR. O novo sistema Anvil Atmos garante uma atmosfera mais dinâmica, onde os objetos destrutíveis reagem às tempestades, como as velas a rasgar e elementos no convés a rebolar. As alterações estruturais garantem ainda uma transição entre a terra e o mar sem loadings ou pausas.
Aqui e ali são vistos detalhes, que muitas vezes passam ao lado, como a possibilidade de abordar barcos em chamas antes destes naufragarem, numa atividade que desafia a ser rápido a fazer o loot dos baús. De salientar os cânticos dos marujos, um dos elementos mais divertidos do original, acrescentando 10 novos temas gravados para este remake. O ator que deu voz a Edward Kenway, Matt Ryan, regressou para gravar os diálogos adicionais com as novas personagens nos segmentos narrativos exclusivos.
O combate corpo‑a‑corpo também foi reformulado, com animações mais variadas e coreografias mais dinâmicas, com golpes, contragolpes e cambalhotas. O sistema baseia‑se agora em bloqueios e esquivas, com ataques codificados por cores. O objetivo é partir a defesa do adversário para lhe aplicar um countdown. Ou seja, ou vamos diminuindo a barra de escudo ou bloqueamos um ataque (azul) no timing perfeito para abrir um contra-ataque fatal. Podemos ainda dar pontapés e fazer combinações com a arma de fogo, não para desencadear combos, mas para variar os ataques, uma vez que os inimigos adaptam-se a comportamentos repetitivos.
Ainda assim, a dificuldade nem sempre acompanha a ambição, uma vez que os combates não são muito desafiantes e, no geral, os inimigos parecem carne para canhão. A inteligência artificial falha em momentos cruciais, com inimigos incapazes de reagir a mortes óbvias durante as abordagens furtivas. Mas isto já é um clássico da série.
Novas missões, oficiais para encontrar e histórias expandidas
O remake expande significativamente o conteúdo paralelo. Há missões de recrutamento que introduzem novos oficiais para o Jackdaw, cada um com uma cadeia de quests própria, apresentando personagens com personalidade à tripulação. O Padre é uma dessas novas personagens e a sua presença encaixa perfeitamente no tom da aventura. Lucy Baldwin, protagonista da missão “A Proper Shipwright”, é outro exemplo: uma pirata lendária que recrutamos após a libertarmos e ajudarmos a recuperar a herança do avô. A recompensa é a habilidade “Perfect Brace”, que permite reduzir quase totalmente o dano naval, se o timing for perfeito a protegerem-se quando atacados pelos navios inimigos. Estas missões adicionam várias horas de conteúdo ao original.

Há novas histórias dedicadas a figuras icónicas. “Blackbeard’s Treasure” transforma o lendário pirata numa figura mais emocional, com uma questline narrativa que não existia no original. O capítulo “A World Without Gold”, composto por oito missões adicionais, aprofunda a rivalidade entre Edward Kenway e Robert Maynard, reforçando o peso dramático da reta final da aventura. O regresso de sistemas como Kenway’s Fleet e as melhorias no quartel general de Great Inagua completam o pacote, oferecendo mais gestão, mais progressão e mais motivos para explorar todas as ilhas e coordenadas dos mapas encontrados.
Continuam a existir áreas assinaladas de mergulho para recuperar arcas de tesouro no fundo do mar. No entanto, o jogo oferece áreas submarinas mais densas para explorar, com tesouros e recompensas escondidas, embora mais perigosas, devido à presença de tubarões ou alforrecas. A caça à baleia e aos tubarões continuam presentes, importantes para melhorar as habilidades do protagonista. De notar que esta aventura oferece agora um novo inventário de trinkets, com diferentes buffs de defesa e ataque, ou melhorias de performance a obter recursos. Podemos criar uma build diferente para a personagem, juntando aos trinkets as espadas, pistolas ou os trajes da personagem.
De salientar que esta nova versão deixou de lado o DLC Freedom Cry, que deveria estar presente (a não ser que haja planos futuros para o seu lançamento). O suporte multijogador foi retirado, o que é curioso que a Ubisoft continue a dar suporte aos servidores online do jogo original.